texto crítico #02

Domesticated Nights de Lívia Zafanelli

Festival Metrô Universitário – Sessão 23/9: Déjà Vu
por Victoria Tuler

As telas como agentes mediadores entre a psiquê dos sujeitos representados e a materialidade do mundo exterior: esse é o fio condutor da Sessão 2 do Metrô deste ano – não à toa intitulada Déjà vu. A expressão francesa, ao pé da letra, significa “já visto”. Ao mesmo tempo, remete a uma ruptura na maneira como o indivíduo percebe a realidade, desencadeada como reação a um fato incitante específico. 

A relação entre o ver e o existir é a provocação proposta pelos quatro filmes agrupados nesse bloco do segundo dia de festival. As obras, cada uma à sua maneira, discutem as câmeras – e os recortes das imagens registradas por elas, sempre agindo como uma manipulação enviesada do tangível – e seu papel nas construções de narrativas individuais, que, por sua vez, contribuem como pequenos nós na rede da coletividade, influenciando a construção da sociedade ao redor. 

Essa conexão indissociável entre a consciência pessoal do ser humano e o ambiente que o cerca é bem ilustrada pelo título do filme que abre a sessão, Projeção, de Thomas Aguina. A dubiedade no sentido da palavra que dá nome ao curta-metragem se encontra na aplicação do conceito freudiano de projeção – em que a mente expressa emoções ou pensamentos indesejados por meio da atribuição inconsciente dessas expectativas a elementos exteriores – e na relação entre a protagonista e sua Super 8, com a qual tem o hábito de filmar cenas cotidianas. A descoberta de um objeto estranho em uma de suas gravações desperta na personagem a ânsia pela quebra da rotina. A vontade de enxergar o surpreendente no ordinário (muito bem trabalhada e retratada pela direção de arte e cenografia do filme) a levam a tentar compreender o que é aquilo que está interrompendo a banalidade de tudo que costuma eternizar em suas películas. As escolhas de edição, sobretudo na cena final, contribuem para acentuar a atmosfera levemente kafkiana da jornada proposta.

A interrogação do espectador sobre a factualidade daquilo que se está vendo também é a pulsão motora de Um Filme de Ricardo, dirigido por Rafael Neri. Partindo de um pressuposto já abordado exaustivamente na ficção – e, talvez, até superado, dados os novos paradigmas e possibilidades críticas criados pelo avanço do debate antimanicomial – a produção gira ao redor das divagações de um psiquiatra, e acaba se desdobrando no limiar entre delírio e realidade objetiva. Embora não haja nenhuma surpresa ou novidade na forma como a temática foi apresentada, há um certo frescor na escolha de quebrar a quarta parede, convidando o público a estabelecer uma relação mais intimista com o protagonista, seu monólogo e seus devaneios.

A abordagem sobre telas e subjetividade ganha contornos mais políticos em Distorção, de Davi Revoredo e Paula Pardillos. Profundamente atual, a obra discorre sobre os programas policialescos que se proliferaram na tevê aberta nas últimas décadas. Usando elementos do cinema de horror para encorpar a criticidade de sua espinha dorsal, o curta é bem sucedido ao refletir sobre a calcificação do imaginário de violência que leva à construção do crime e de uma suposta ameaça constante como inimigos invisíveis. As nuances são acentuadas por uma edição permeada por alguns detalhes surrealistas e por planos bem arquitetados, que acrescentam uma camada de claustrofobia e voyeurismo – transformando quem assiste em uma espécie de cúmplice da escalada de terror e ansiedade da protagonista – essencial para o desenvolvimento da obra. 

Domesticated Nights, de Lívia Zafanelli, fecha a sessão com chave de ouro. Com uma curadoria dedicada de imagens de câmeras de vigilância (que, com frequência, podem ser acessadas virtualmente sem senhas, seja por desconhecimento ou descuido de quem as opera), o filme tece uma observação poética, vertiginosa e potente sobre privacidade e olhar como ferramenta de dominação, sobretudo num contexto em que a essência do Grande Irmão já deixou, há muito, de ser uma mera criação distópica ficcional. Um grande acerto do curta experimental são intervenções textuais pujantes, que corroboram a reflexão e invocam paralelos com obras de Jonas Mekas e Boris Mitić. O diálogo que nos atravessa ao fim da experiência, certamente, é tão reverberante e transformador quanto os que marcam a filmografia dos dois cineastas citados. Para além de todas as suas nuances e importâncias na conjuntura sociopolítica atual, a segunda sessão do Metrô ganha uma nova ótica no contexto da pandemia – afinal, o isolamento social recomendado como medida de contenção à Covid-19 intensificou, moldou e ressignificou nossa relação com as telas. Agora, é a oportunidade para que os filmes dessa programação desconstruam e reconstruam nossa percepção sobre a realidade que vemos – ou pensamos ver – por meio desses dispositivos eletrônicos.