texto crítico #09

Preâmbulo Para Amar a Rua de Oda Rodrigues

Festival Metrô Universitário – Sessão 26/9: Projeção
por Pedro Mesquita

Vemos nos filmes da sessão Projeção a vontade de viver o mundo (ou voltar a vivê-lo, assim que for possível); vemos a vontade dos indivíduos de entender o seu lugar no mundo; vemos o cinema como intermédio entre essas vontades individuais e o público ao qual elas são destinadas, como uma projeção dessas vontades de modo a fazê-las visíveis a todos nós. 

Preâmbulo Para Amar A Rua (Oda Rodrigues, 2019) nos traz, quase que profeticamente — visto que, mesmo não parecendo, trata-se de um filme do ano passado —, uma situação que hoje vivemos: as ruas estão vazias. O narrador, triste com esse esvaziamento de toda vida à sua volta, refugia-se na escrita e passa, então, a imaginar o seu próprio mundo; em outras palavras, na falta de uma vida real a se viver, o narrador-personagem vira narrador-observador das vidas das personagens que cria. O filme estabelece, então, uma mise-en-scène muito reminiscente da obra de Terrence Malick, pois permanecemos com aquele voiceover onisciente do escritor enquanto observamos as personagens, que raramente ganham voz, trilhando seus caminhos pela cidade. A experiência se revela frustrante: não basta imaginar as ruas, deve-se senti-las. “Existe o momento de abandonar a literatura e ir até as praças”, diz o homem enquanto ele encerra o filme, na esperança de que nós também o façamos.

O desejo de “ir até as praças” também está presente em Acho Que (Bianca Pirmez, 2020). A sentença interrompida do título nos remete ao procedimento formal que constitui o filme: através da montagem paralela (que irá sublinhar esses vários “achos que”), vemos diversas entrevistas realizadas pela diretora por meio de vídeos com pessoas que supomos ser seus amigos — cada um em sua casa. Eles conversam sobre suas próprias emoções durante este período de isolamento social; fala-se do choro, dos pequenos prazeres do cotidiano, do ódio a outras pessoas (que, como não poderia deixar de ser, é direcionado a figuras públicas que só fizeram piorar a duração do isolamento). Daí a escolha pela montagem paralela: ao conectar as respostas das diferentes pessoas de modo a dar a impressão de simultaneidade, notamos similaridades entre elas; sentimos gostos e desgostos semelhantes; percebemos, em suma, como, mesmo distantes, não estamos de todo sozinhos.

Já que eu falo de montagem paralela, aproveito para falar de Onde a Fé Tem Nos Levado (Neto Astério, 2020), que faz um uso muito interessante da técnica. Alternamos entre dois núcleos: de um lado, uma senhora andarilha que vocifera contra os problemas da terra em que mora; de outro, jovens que vão à praia, bebem cerveja, vão à balada etc. O filme estabelece inicialmente um contraste entre esses dois núcleos de modo a sugerir que os dois se desenvolvem em lugares diferentes (a senhora parece andar por um vilarejo tipicamente sertanejo, de interior; os jovens parecem estar em uma cidade grande do litoral), mas a maneira como essa ideia é subvertida diz muito sobre a coexistência desses contrastes no território brasileiro. Além de compartilharem a terra, todos compartilham do mesmo conflito: a angústia existencial, que aparece porque, ao contrário do que o título sugere, a fé parece não os levar a lugar nenhum.

Em Ainda Somos os Mesmos nas Memórias do Passado (João Folha, 2020) vemos projetados os filmes caseiros que pertencem ao diretor, filmados por seu pai ao longo dos anos. O filme, que termina com a revelação de que ele havia falecido, se apresenta então como uma tentativa de recuperar as memórias do pai. Não as memórias do corpo, como fizeram outros filmes do Festival ao filmar seus entes queridos, mas as memórias do espírito daquele homem: somos postos a ver o mundo através dos seus olhos, visitando todas aquelas filmagens em família feitas por ele a partir do seu ponto de vista das coisas, ouvindo aquilo que ele tinha a dizer, sempre muito bem humorado… O filme, inclusive, entra numa espécie de contradição interna, pois nos transmite, através das legendas, um discurso pungente sobre a efemeridade da vida, adornado por uma trilha sonora melancólica, mas o que acaba nos ganhando são as imagens e sons desse homem cuja energia contagiante nos fascina. No entanto, não há nada mais humano que ser contraditório, então esse impasse entre a celebração e o lamento faz de Ainda Somos… um dos mais realistas filmes sobre o luto.

Aréola (Malu Tamietti e André Castro, 2020) também retrata relações entre pais e filhos, embora sob uma perspectiva muito diferente. O filme conta a história de Malu, uma jovem estudante de cinema, no momento em que ela passa por um grande ponto de inflexão em sua vida: a maternidade. Diretora e personagem, ela faz do seu filme um relato das grandes dificuldades e das grandes belezas desse período, colocando-se como protagonista mas também convocando outras mulheres, amigas e familiares, a participarem do trabalho contando suas histórias. O trunfo do filme é o clima íntimo que se cria tanto entre as personagens em si quanto entre elas e a câmera — feito não muito comum para um documentário estruturado a partir de entrevistas. Embora a arte não possa substituir a experiência do mundo (como nos mostrou Preâmbulo Para Amar A Rua), ou seja, embora não possamos “entrar na pele” das personagens, somos levados a sentir a força desses relatos e deles nos compadecer, e quem sabe derivar da emoção a ação.

Esses filmes nos fazem olhar para o mundo, sentir saudades dele, zelar por ele.