Metrô – Festival Do Cinema Universitário Brasileiro

texto crítico #02 – Contrastando o Antes e o Agora. – por Felipe Feitosa

Contrastando o Antes e o Agora

por Felipe Feitosa

Presos em casa graças aos males do tempo presente. A pandemia me faz pensar que esses realizadores (Mariana Machado, E. M. Z. Camargo, Helena Frade e Kimberly Palermo) foram levados a confrontar o passado quando o hoje já não oferecia suporte para o fazer cinematográfico. Ao mesmo tempo, surgem alguns empecilhos, desafios comuns a todos eles. Questões que vão, sem dúvidas, invadir a sessão que abre o Metrô de 2021: Qual a forma da lembrança? Qual a textura da memória? E mesmo após entender as arestas das recordações, vale continuar se questionando: Elas são compartilháveis?

“Voltar o tempo pra frente”, este título, provocativo e paradoxal, parece discursar sobre um suposto “tempo” que estava fora do lugar, que seguia rumo a uma outra zona – para trás – talvez na direção do “antes”. Contudo, ao meu ver, estamos falando sobre deslocar o passado para o presente, qualidade comum a todos os filmes que preenchem a sessão.  Seja na reconstrução das memórias, seja no reencontro com elas ou mesmo na efabulação completa, todos os quatro curtas estão lidando de alguma forma com lembranças, lapsos e vislumbres de um tempo que esteja sempre pregresso aos seus personagens.

 Quando cada cineasta desta sessão põe em xeque essas imagens, acaba convidando-nos a uma viagem rumo as cenas que remanesceram nas memórias. E, ao usar “imagem” aqui, não estou me limitando exclusivamente ao registro fotográfico/cinematográfico de uma câmera/filmadora – basta pensar nas diversas vozes que são inseridas nas bandas sonoras das obras.

Nesse sentido, eu sou levado imediatamente à Ângelo, de Mariana Machado, e às falas joviais do Seu Machado, personagem-título do filme. É um documentário ensaístico, livre na forma como lida com a estrutura, que acaba se autodefinindo como um retrato pela voz da própria diretora. Mariana se faz presente ao longo dos vinte e poucos minutos de exibição e, apesar de agregar ao filme com uma intimidade extremamente necessária (arriscaria dizer que a relação dela com o avô é o que permite que tanto carisma transborde em tela), acaba, também, sobrando a ponto de parecer se esgueirar para dentro do quadro com a câmera na mão.

Contudo, é inteligente ao perceber que um retrato no cinema não seria completo a partir de um único suporte. Mariana se apropria de diversos recursos para transmitir as diferentes narrativas a respeito de seu protagonista: seja na filmagem digital, no retorno ao negativo da fotografia, no registro analógico familiar ou na encenação poética. As escolhas formais estão a todo momento tentando se alinhar com a natureza da lembrança, ou melhor, do sentimento que envolve a lembrança.

Ângelo conquista com facilidade o espectador. O primeiro quadro em que ele surge, com sobrancelhas despenteadas e com uma voz que transmite empolgação, ilustra o encanto deste que nós vamos acompanhar. Dessa forma, quando uma enxurrada de diferentes formatos toma conta do curta, nós nos permitimos ficar para ver e, mesmo que desligados de uma linha narrativa mais definida, somos embebedados pela possibilidade de saber as histórias e estórias dessa figura aconchegante. Logo, pelo menos no meu caso, Ângelo acaba me envolvendo nos contos e causos de um avô, mas pode soar celebrativo na medida que sempre volta ao íntimo e fechado núcleo da diretora.

Se decidirmos pensar, então, um outro filme que se achega com facilidade ao lado de Ângelo, estaríamos nos voltando para Vida dentro de um melão, de Helena Frade. O ato de reconstruir a memória por completo se faz simbólico e marcante nesse segundo filme mineiro. As semelhanças vão se limitando apenas às figuras paternais presentes e à conterraneidade das obras. Frade parece se preocupar mais em compartilhar uma espécie de sentimento, de emoção. A construção da família por meio de bonecos de pano sintetiza um pouco dessa aspiração a um filme mais livre de uma ideia de realidade.

A animação vai misturando elementos diversos e desenvolvendo um universo particular. Ao abusar das caricaturas que a própria família tem, a diretora acaba criando algo que pode dialogar amplamente com os espectadores. E, por meio dessa liberdade de ficcionar, a obra vai conquistando elementos simbólicos que, pelo menos para mim, soam muito fortes. Frade junta, através da voz, os pássaros e os seus personagens. Assim, acaba integrando os elementos que posicionam seu filme numa paisagem mais interiorana com a própria forma de encenar e, a partir dessa proposta mais fabulosa, constrói com maior destreza os sentimentos das cenas.

Assim, quando imagens que trazem um pressuposto mais documental – devido à natureza do registro cinematográfico – invadem a tela, a cineasta assume que tudo destoa do seu calmo mundo encantador e, então, acelera o vídeo. Talvez, na realidade, a família seja meio bagunçada e caótica, mas na memória ela é amena e aconchegante. Permitindo, no fim, que a efabulação conclua a obra e contrastando, por exemplo, com Ângelo: enquanto Mariana Machado assume a impossibilidade de se documentar a imagem desejada, Helena Frade cria a cena que procurava.

Acompanhando o movimento de Helena e seguindo rumo à aproximação com a ficção, chegamos a Muitos anos de vida, de E. M. Z. Camargo, e os últimos registros documentais que a primeira sessão do Metrô pode oferecer ao espectador. A frase “Acervo particular cedido pela família” chama a atenção quando sobem os créditos. Camargo e Anne (atriz que faz a protagonista) retomam os registros de seus próprios aniversários, usando-os para compor a cena desta ficção. Ao articular as imagens de arquivo de forma pouco propositiva dentro da encenação, o diretor acaba traduzindo nos planos um pouco da superficialidade que está presente em seu curta. Todos os recursos linguísticos usados soam arbitrários, se limitando, na minha experiência com o filme, à uma estilização barata. Uma festa de aniversário sem convidados. Ao remontar uma dinâmica formal mais clássica, Camargo pouco dialoga com o conteúdo dos quadros. De que vale o preto e branco? O ruído artificial? E a decupagem? No fim, nada corrobora com a narrativa proposta, gerando empecilhos na aproximação do espectador com o filme.

A máscara no rosto da atriz traz à tona o presente histórico que nós vivemos e isso ajuda nas nuances de pensar o que significa comemorar mais um ano de vida. Porém, nem o diretor parece estar pensando no que a imagem de seu filme revela. Tudo é maneira no curta, mas nunca é à maneira de alguma coisa.  Permanece simples no sentido negativo da palavra, já que se opõe a simplicidade do seu argumento com uma poluição visual.

Por outro lado, Cenas da Infância, de Kimberly Palermo, é estiloso na essência de suas escolhas.  O filme não está lidando com nenhuma memória que se origine no mundo extra-diegético, mas ainda assim a diretora me parece estar brincando com uma ideia de lembrança. Aquilo que marca o ratinho que protagoniza o curta, também marca o espectador. Seja uma lembrança boa ou traumática, ela vai continuar se espalhando pelo filme, ganhando mais força e se tornando cada vez mais visual. Logo, o rosto inexpressivo do pequeno rato, quando contraposto a toda aquela peculiaridade, acaba refletindo um pouco mais a reação do espectador do que do personagem em si.

A diretora trabalha visualmente com esse estilo de stop motion mais apático conduzindo o espectador por essas cenas que podem ser interpretadas de forma livre, mas que vão sempre influenciar o próximo quadro, que geralmente é um primeiro plano do rato. A ação da cena, o plano anterior (aqui como o passado narrativo), modifica o retrato do protagonista – plano que vemos agora (o presente narrativo). Ou seja, é um retorno meio cru ao efeito Kuleshov. A repetição constante, feita de forma inteligente e meticulosa, transforma o personagem e o espectador ao longo da exibição. No fim de tudo, é provável que “Voltar o tempo pra frente” seja mais sobre o ato de olhar para trás e entender o que se dá agora. Seja em documentário ou em ficção (ou mesmo no hibridismo de ambos), os personagens estão sempre lidando com aquilo que veio antes, que aconteceu num passado distante ou no plano anterior. De algum jeito os filmes que estão presentes nessa sessão me levaram para esse lugar de questionar a memória. Desde Ângelo e sua documentação que retoma os registros do passado, até Cenas da Infância que constrói sua dinâmica no corte. É sempre aquilo que está atrás definindo o rumo do que está na frente – é o tempo passado voltando ao seu rumo e concluindo o presente.