texto crítico #06

Maresia de Caio Scovino e Gustavo Koncht

Festival Metrô Universitário – Sessão 25/9: Feliz Ano Velho
por Alanis Machado

Antes de assistir a sessão o título me fez fantasiar sobre o que seriam os filmes, achei que fosse ser sobre réveillon, logo veio no meu imaginário o Babilônia 2000 (2001), de Eduardo Coutinho, pois é o melhor filme sobre virada de ano que já vi. Mas no fim das contas, como todas as outras sessões, essa não teve nada a ver com o que eu esperava dela – a curadoria do Metrô sempre quebrando com minhas expectativas (de um jeito maravilhoso). 

Agora falando sobre a realidade da sessão, o primeiro filme Copacabana Madureira (2019) relaciona violência policial, cristianismo, Fake News e educação com uma impressionante maestria na montagem, em um jogo de causa e consequência que ilustra a ideia de uma realidade fabricada, e como essas mentiras se transformam em algo real a partir do momento que têm efeitos reais. O uso do WhastApp como veículo de informação e o perfil das pessoas que acreditam nessas notícias, os absurdos repassados em nome da defesa da família e dos bons costumes por essas pessoas, e ao mesmo tempo a descrença com notícias de violência policial, “também não é bem assim, tem que ver direito o que aconteceu”, acreditar na realidade que convém. Mas o curta também aponta para outro lado, a ineficiência da esquerda em propagar ideias usando o mesmo veículo que a direita usou para manipular as eleições, as redes sociais – há uma chacota com o uso de hashtags. A grande diferença talvez seja que as piadas da direita são tão estúpidas que ela mesmo ri delas e a esquerda militante do Twitter se leva muito mais a sério do que deveria. Enfim, enquanto há esse embate na internet, pessoas da periferia continuam morrendo pelas mãos da PM.

Em uma instância completamente diferente, Maresia (2020), um filme sensorial, transforma um estado sentimental em uma obra fílmica. Tem uma narração com tom de dia nublado na praia, traz sensações de alguém que está tentando superar algo ruim, uma náusea causada pelo luto. Os planos de longa duração, coisas inanimadas, a falta de ação e uma estaticidade visual acentuam o teor da narração. O narrador foi impedido de algo, o plano lateral de um beijo gay nos dá pistas do porquê de o filme ter esse tom, porém não temos uma explicação, temos apenas esse sentimento.

Também como um filme sensorial, temos o Corpo (2020), porém enquanto Maresia retrata um sentimento, Corpos retrata sensações físicas, tal como fazem os cineastas Bárbara Hammer e Stan Brakhage em suas obras. A primeira pelo conteúdo do filme, a exploração da sexualidade feminina, em particular a masturbação, que também é o foco central de Multiple Orgasm (1976), onde a temática é explorada através de planos com texturas diferentes sendo sobrepostos. E o filme enquanto forma me lembra a filmografia de Stan Brakhage, em particular a série de filmes Dog Star Man (1961-1964), e como ele transforma imagens figurativas recortadas da realidade em imagens abstratas, através de desfoque e de planos muito próximos.

No último filme dessa sessão, TAMANHO 34 (2020), temos um perfil de personagem diferente dos outros curtas: são mulheres dentro das normas, com problemáticas muito diferentes dos personagens dos demais filmes. TAMANHO 34 discute padrões de beleza imaginários e inatingíveis e como eles afetam pessoas reais, criando uma série de paranoias e distúrbios em mulheres que tentam alcançá-los. 

Descobri que a sessão não era sobre virada de ano, muito menos sobre Eduardo Coutinho, mas sim uma sessão que abre a discussão sobre corpos, dissidentes ou não, como eles se relacionam com o mundo, como a sociedade os molda e como eles a moldam, que espaços ocupam, que espaços podem ocupar, quais são os problemas enfrentados por eles, quais valem mais e quais não importam.