Por Anna Lia
Talvez não haja no mundo uma relação tão complexa quanto a de uma mãe com sua filha, de uma filha com sua mãe.
Lena (2026, dir. Lanna Carvalho) parece não só saber intimamente esse segredo, mas o utiliza para nos contar sobre esse elo. Mesmo tomando como ponto de partida um passeio entre mãe (Lena) e filha (Luísa) em que esta anuncia que passou em um intercâmbio, o curta pede licença às narrativas em que a protagonista é a filha em uma jornada pelo mundo e foca na figura materna que fica. Esta decisão deixa o espectador ao lado de Lena (cujo nome dá título ao curta) depois da partida de sua primogênita.
De certa forma, este momento do anúncio do intercâmbio é uma despedida entre as duas personagens. Apesar da relutância inicial – um misto de medo, cuidado, apreensão, tudo “coisa de mãe” –, Lena afirma à filha que ela vai até a Espanha. Porque mães sabem que, mesmo com suas próprias ressalvas, amar é deixar a filha voar.
No lugar secreto em que esta confissão foi feita – uma lagoa onde mãe e filha se banharam e se divertiram –, Lena encontra um lugar para se conectar com a ausência física da filha. O retorno de Lena até lá, agora por si só, parece querer matar uma saudade que não vai embora. A sensação desse momento até dói o coração de quem vê – afinal, quem nunca sentiu saudades?
Lanna Carvalho parece entender que saudades de uma mãe com sua filha é coisa imensurável. Mesmo que Lena também seja mãe de Levi, o curta diz sem pudor que não é a mesma coisa. Quando Lena liga para a filha para perguntar como compra passagem para a Espanha (mesmo que antes tivesse admitido que não entraria em um avião de jeito nenhum, que Deus não deu asa em ser humano por um motivo), a gente sabe que é por esse amor tão grande, lindo e avassalador. É amor de mãe e filha.
Talvez por tudo isso e mais um pouco é que Lena ficou ressoando tanto comigo durante sua exibição, na primeira sessão da Mostra Competitiva do 9° Metrô. Mesmo que o curta não terminasse com o letreiro “Para minha mãe“, o filme todo de Lanna parece dizer isso em todas suas cenas e gestos. A diretora parece compreender que olhar para a personagem de Lena é jogar luz à figura das mães não apenas como função social de cuidadora, mas destacá-la na dimensão maior do seu afeto e carinho. Vejo essa posição (que transparece nas escolhas estéticas do curta, da direção de atores delicada aos planos longos com respiro) não apenas como admirável, mas também de uma arte feita com muito, muito amor.


