Mate-me Por Favor (2015), de Anita Rocha da Silveira
Filme de abertura
Textos de alunos da Oficina de Crítica do 9º Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro
2015, onze anos depois
Por Anna Lia
2015 foi há onze anos atrás. Mas Mate-me Por Favor (2015) parece ser de antes, encapsulando uma adolescência pós-começo do milênio e pré-2010. Se a diretora do longa, Anita Rocha da Silveira, disse “não” a envelhecer o filme dessa forma quando fiz um comentário durante a abertura do 9° Metrô, o que me encantou foi justamente esse ponto.
Os vários tons de rosa, as pulseiras de bijuterias, a maquiagem com foco no batom, os passinhos de funk carioca que se tornam jingles evangélicos. A sensação de retorno a um passado que não volta – seja de quando ainda era necessário dividir o tempo do computador com um irmão, seja da adolescência perdidas dos alunos do colégio CBT da Tijuca – poderia até assombrar o filme; mas, ao contrário, reluz o momento ali representado com vigor e cuidado.
É até triste pensar que a juventude que viveu a pandemia parece conviver com maior intensidade com angústias que não pareciam tão grandes no contexto do filme (ou que talvez a semente delas começou a ser regada bem ali).
Hormônios melancólicos
por Manu Couto
Um filme com tesão pela mórbido, que caminha perdido pelo canto da pegação que é a vida. Hormônios melancólicos à flor da pele, que olham com o mesmo fascínio para um beijo pegado e para um corpo morto. Uma adolescência beirando à morte. Um coming-of-age às avessas.
Pesadelo pop
por William Tonon
Um filme que apresenta uma adolescência na Barra da Tijuca onde desejo e morte andam juntos, mas o mais interessante (e divisivo) é o filme se recusar a tratar esses elementos de maneira convencional. Há algo deliberadamente artificial na construção daquele universo, quase como se o longa estivesse preso entre um sonho febril, um melodrama adolescente e um horror que nunca se entrega completamente ao gênero.
Por trás das mortes e da atmosfera de estranheza, existe um olhar bastante ácido para uma juventude que parece experimentar tudo com intensidade demais e, ao mesmo tempo, não saber exatamente o que fazer com aquilo que sente graças a uma repressão constante vinda de diversos aspectos de suas vidas, incluindo o ambiente religioso (que aqui também é palco para um humor inesperado).
Anita constrói uma espécie de pesadelo pop sobre crescer em um mundo onde a violência pode tirar todas as suas perspectivas de tal coisa. Aliar um tema tão complexo a uma forma irônica e afetada é difícil, e quando ela se joga no camp, o que entrega é excelente. Uma pena que, no meio dessas fabulosas sequências, o lado mais melodramático do filme não seja tão engajante. Mas identidade tem, e tem de sobra.
Garotas que sobrevivem
por Denise Maria Costa
Mate-me por favor é um filme que permite que adolescentes sintam e tenham curiosidades sexuais, sejam “imperfeitas”, passem por desilusões e sobrevivam para contar a história. Essa abordagem, de certa forma, quebra regras daquele cinema que só permitia a sobrevivência de garotas consideradas “boas moças”. As obras de Anita Rocha da Silveira não oferecem aos(às) espectadores(as) a concepção de que só é possível sobreviver se houver obediência às regras; pelo contrário, elas aproximam o horror da nossa realidade, mostrando que qualquer mulher pode ser a próxima vítima, rompendo com o estereótipo da final girl clássica.
O flerte com a Morte e o Desejo
Por Thiago Reinaldo
O filme se aventura, por meio de uma estética visual marcante, no universo feminino de jovens que são definidas por agressões que limitam sua juventude e as oprimem. Ao longo da narrativa, acompanhamos Bia, uma adolescente passando por inúmeras descobertas com o corpo. Seu desejo impossível de ser controlado a faz entrar num flerte com a morte, tão presente no seu dia com as constantes notícias de assassinatos de meninas na Barra da Tijuca. Em meio à sexualidade e à efêmera juventude, o corpo é o que nos liga ao mundo, e o sangue é vida.
Tragédia, apocalipse, adolescência
por Duda Pereira
Captar a essência do estranhamento da adolescência frente ao caos de desejos, sentidos e pensamentos desorganizados dentro de corpos famintos de vida é uma atividade que exige uma viagem memorial à um período sensível de grande parte das pessoas. Anita Rocha consegue realizar esse trabalho de uma maneira muito curiosa. A Barra da Tijuca é um ambiente desorganizado e carente de identidade nos anos 2010, quando boa parte do seu território ainda é habitado por mais prédios comerciais, condomínios e igrejas do que pessoas. Não à toa, o bairro é quase que protagonista dentro dessa narrativa de ciclos de violência e personagens em busca de respostas mórbidas sobre as vítimas deixadas em terrenos desocupados.
Mate-me Por Favor é um filme de fluídos: sangue, gozo e lágrimas, excessos do corpo humano em combustão nesse espaço perdido. E tudo isso vira notícia. Dos vestígios deixados por esses fantasmas do ambiente virtual e da vida, às confusões menos trágicas dessa juventude em cena. A realizadora parece provar que o caos pode ser organizado por meio da linguagem fílmica.
