por Duda Pereira
Na noite da 2° Mostra Competitiva, os espectadores presenciaram uma sala inteira em escuro, uma tela preta que não parecia ter intuito de terminar. Enquanto isso, a narração do filme prosseguia sem demonstrar se importar com essa mudança.
Na experiência do cinema, o público se conforta com a certeza de estar diante da imagem que se possibilita ser olhada sem que o contrário aconteça em troca. Ao subverter essa lógica, Os Ladrões do Brasil brinca com os mecanismos do cinema de gênero e reinventa a relação cinema-espectador, tanto no uso do dispositivo do falso documentário como no resgate do cinema narrativo como fabulação. Não existe um mundo hermeticamente fechado que se desenrola de forma mágica, como Laura Mulvey sugere em Prazer visual e cinema narrativo. A plateia pode ser parte essencial da construção do filme. Pedro Guimarães Rosa mergulha entre o cinema de ilusão e o de sonho.
Por articular indicações de festivais que não existem, imagens de arquivo reais e inventadas, uma produção de cinema de retomada que nunca existiu e o registro das palavras encantadas de uma criança, o curta-metragem é quase um ensaio sobre a produção cinematográfica brasileira e as estradas que nos levaram até aqui. A limitação que afeta, principalmente, o cinema independente e universitário deve ser, enfim, o motor de obras que não pedem licença para se aproveitar dos recursos presentes no armazém audiovisual à disposição — tudo que já existe pode se transformar em um algo novo, disposto de vigor.
Como exposto pelo realizador no debate pós-sessão, a ideia do filme é direcionada também pela pesquisa do crítico Jean-Claude Bernardet sobre cinema documentário a partir do estilo do cineasta Eduardo Coutinho, que cria um dispositivo característico que é reproduzido por outros documentaristas como pastiche. O narrador ironiza essa exploração documental pelo filme perdido através desse modo de linguagem esgotado no gênero. As ligações com a equipe que se desfez e os poucos registros que sobraram criam um panorama simbólico desse momento da retomada e as disputas por recursos.
Afinal, desaprendemos a sonhar? A presença infantil que invade os últimos momentos da obra muda o seu tom e estética em muitas camadas. Desenhos em papel aparecem na tela entre gravuras e sons rítmicos da narrativa que engata em viagem. O convite é feito à plateia: permita acreditar que a voz é guia da emoção e todo filme é composto de imagem e som, o resto é esclarecimento.


