Por Anna Lia
Em Pedra Branca, arraial de Bambuí (MG), há um cemitério abandonado atrás do campinho de futebol. De muros baixos e um portal cujas inscrições não podem ser mais lidas, ao adentrá-lo o espaço foi tomado por buracos de tatu e galhos do cerrado. Ali dentro, o que nos conta sobre o passado do terreno é uma ou outra cruz corroída no chão, além da única lápide intacta ao fundo – com a foto do falecido, mas não seu nome.
Dedico um parágrafo inteiro a contar sobre o cemitério de Pedra Branca, esse lugar que me fascina e em que estava há pouco tempo, pois foi a ele que me remeti assistindo aos primeiros dois curtas da Mostra Competitiva de sexta-feira (4/9), no 9° Metrô. Epílogo (2025, dir. Wane Travasso) e Elegia (2025, dir. André Quevedo Pacheco) abrem uma sessão que flerta tanto com a pulsão de morte quanto a de vida. Mas nesses curtas em específico, o cemitério não é só cenário, mas sim o lugar de reflexão dos seus realizadores.
O cemitério criado por Wane Travasso é manual (pela arte delicada do stop motion) e passageiro (estamos nele apenas por uma cena). Ali está enterrado o motivo da saudade de Aziza, a protagonista de Epílogo. Se lidar com a distância em todas as suas dimensões é uma das coisas mais difíceis durante o luto, Aziza subverte esse empecilho. Quem disse que é preciso ficar longe de quem se vai?
Tirar um corpo do lugar em que ele foi pensado para descansar pode até ser visto como uma violência, mas Aziza age, na verdade, por uma dor repleta de afeto: ela brinca com a cabeça, dança com a parceira, compartilham a cama, até tira foto com a amada. A protagonista faz do seu quarto o jazigo para sua saudade. E é ali mesmo que Aziza, após ser pega pela mãe, enterra seu passado e segue em frente. O quarto se torna cemitério – ou melhor, o cemitério já era ali antes do corpo morto chegar, na imensidão do luto de Aziza. Quando a protagonista termina seu ritual fúnebre particular, enterra-se o cadáver e, finalmente, é feita a despedida.
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O cemitério apresentado por André Quevedo Pacheco em Elegia, diferente do de Pedra Branca e do de Aziza, tem nome registrado no concreto: Cemitério da Consolação, localizado no centro de São Paulo. É um lugar dicotômico: os muros abandonados de fora não parecem cercar lápides com esculturas em mármore e jazigos do tamanho de capelas. A barulheira da construção e da vida de fora não consegue alcançar os mortos lá dentro.
A materialidade de sua loca(liza)ção principal é fundamental para entendermos as potencialidades do curta: é Sampa tijolo por tijolo, a cidade morta e abandonada, repleta de contradições como o próprio Consolação. A arquitetura hostil da capital, de construções e destruições infinitas, parece mais fúnebre do que o próprio cemitério.
Pacheco encontra a maior potência de seu curta-metragem no espaço. Mas Elegia não fala só disso e, na verdade, tenta falar de muitas coisas – coisas demais. Entre o mar de personagens, referências e experimentações, o que ganha mais força é quando o tempo é dedicado à cidade morta e ao cemitério. Quando as imagens gritam que a morte não é o passado, mas sim toda a existência presente da capital, é quando me conectei mais com a obra. Me fez pensar que talvez o abandono do cemitério de Pedra Branca – pelo tempo, pela ressignificação da própria comunidade daquele espaço – talvez não seja tão cruel quanto a gentrificação e o esquecimento dia após dia em São Paulo.


