Por William Tonon
A pandemia criou cercas em nós. Sejam elas físicas ou em nossas mentes. Comer se tornou uma atividade que pode ser feita com delivery; por que sair e ir a um restaurante? O trabalho? Também se torna um processo em casa, estar em uma repartição não é mais necessário. Muitas foram as obras que discutiram (ou tentaram discutir) o impacto da pandemia nas nossas relações interpessoais e nos nossos hábitos. Em Janete, da diretora Rebecca Cerqueira, a exploração é simples, mas, de certa forma, adorável.
Pasmem: Janete não conta a história de Janete, mas sim de Cíntia, a dona da Janete, que é um aspirador robô. A autonomia dos robôs sempre impressionou a mídia cinematográfica e televisiva e, nesse sentido, Janete é como um episódio mais enxuto de Black Mirror. Mas diferente da série carregada de uma atmosfera fatalista, Janete é gracioso ao nos imergir no cotidiano de Cíntia tratando o eletrodoméstico como uma espécie de gatinho, a ponto de, quando retorna ao trabalho presencial, compra uma espécie de babá eletrônica para vigiar a aspirador atentada.
Se este fosse um filme da Blumhouse, Janete se tornaria obsessiva com Cíntia e provavelmente a assassinaria no terço final do filme, quando a protagonista encontra alguém interessante para interagir. Mas a direção de Cerqueira consegue um feito tão estranho quanto encantador ao parecer que seu objeto inanimado tem uma personalidade agradável. Janete lembra a dona de sua solidão quando aspira um anel. É quase como se ela incentivasse a protagonista a sair da bolha de isolamento. Um caminho divertido, leve a até mesmo inovador para falar de nossa relação com a tecnologia.


