Por Anna Lia
Valério, um homem de 65 anos, é o protagonista e alma de Desvios Naturais (2025, dir. Rafaella Narciso). Ele vive em sua Kombi, tendo como única companhia o rádio. Na estrada, sua imagem não é de aventureiro; seu olhar exprime uma solidão de quem está nessa há tempos. Não parece cansado do caminho, mas o aceita como seu destino.
Parte maior da obra é compartilhada apenas pelo protagonista e pela câmera. Essa intimidade ressalta a atuação do ator, que sustenta as emoções do personagem com primor. Quando, em um bar, ele ouve uma música ao vivo que o emociona, não apenas nos emocionamos junto com ele; também compreendemos que sua sensibilidade tem outras camadas. Tal qual uma boneca russa, a cada cena desbravamos um pouco mais sobre os significados dos silêncios e posturas do personagem.
Apesar da formalidade técnica das imagens, Narciso não transfere tal rigor para o tratamento com o personagem. A realizadora tem o cuidado de não entregar para o público o passado de seu protagonista por completo, esperando a cena com o filho para mergulhar mais uma camada. Por isso mesmo, ao deixar fechada a caixa de pandora de Valério e optando por apenas nos dar sinais de suas sombras, é que a cena entre pai e filho ressoa tanto. É ali que, finalmente, o passado do personagem vem à tona, ainda que cercado por um nevoeiro.
Dos vários elogios que faço a Desvios Naturais, talvez o maior deles seja quanto ao olhar para seu protagonista. Para além da óbvia sensibilidade da realizadora e do ator principal, o filme dá espaço para a contemplação, deixando o público preencher lacunas quanto à decisão do protagonista. Isso tem ainda mais força por Valério ser um sujeito velho, cujos corpos são limitados narrativamente, por uma série de motivos.
Nesse sentido, assistindo ao curta-metragem, lembrei-me do conceito de gerontocídio. Para além da concepção no mundo jurídico, o termo pode ser melhor compreendido no contexto do filme pela fala de Ana Clara Souza Damásio, antropóloga social:
[…] pelo que o que Carlos Henning (2020) denomina enquanto “gerontocídio”. São pessoas que estão sendo delegadas à morte e se encontram em meio a disputas de narrativas que envolvem uma reconfiguração das ideias que delimitam e caracterizam os sujeitos velhos. (DAMÁSIO, 2020).
Em Desvios Naturais, Valério não é colocado sobre uma lente comum de narrativas que observam os sujeitos velhos. Mesmo perseguido pelo passado, ele é dono de si, do próprio caminho. Além disso, o curta também vai contra a concepção natural do idoso que se torna fardo para o filho, dando agência e decisão a esse personagem. Logo, o curta de Rafaella Narciso, em todas as suas opções narrativas, se posiciona contra tal gerontocídio.
Quando Valério retorna à estrada, é por escolha. Não é solidão; é solitude.
*Fonte da citação: DAMÁSIO, Ana Clara Sousa. Fazer-Família e Fazer-Antropologia uma etnografia sobre cair pra idade, tomar de conta e posicionalidades em Canto do Buriti-PI. 2020. 206 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2020.


