Por Anna Lia
No 9° Metrô, histórias sobre amores maternos permearam todo o festival. A título de exemplo: enquanto Lena (2026, dir. Lanna Carvalho) acompanha a protagonista homônima ao curta após a partida da filha para o exterior, A Estrela-ilha e o Peixe-pássaro (2025, dir. Áquila Félix e Nadi Silva) exprime o luto e a saudade da figura materna pela experimentação.
No entanto, se nesses dois curtas mães e filhos compartilham a tela mesmo que por algumas cenas, o que primeiro chama atenção em Partes de Mim que Esqueci (2025, dir. Martins Samara) é a ausência da filha. A opção da diretora dde ficar atrás das câmeras, sem interação com sua protagonista, afirma o olhar que o curta-metragem opta: a realizadora é a câmera e sua mãe, seu objeto de observação.
Tive a chance de ver Partes de Mim no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), onde o filme foi premiado na Mostra Visões do Futuro, dedicada a produções universitárias do Centro-Oeste. Revendo o filme ontem (5/9), não pude deixar de lembrar da experiência na cidade de Goiás, onde primeiro conheci o curta. Isso porque esta obra de Samara conversa também com A Vasta Natureza de Minha Mãe (2025, dir. Aristótelis tothi e Inez dos Santos), longa também goiano. tothi é, inclusive, veterano de Samara na UEG.
Nenhuma comparação é justa, ainda mais em contextos tão diferentes (apesar das aparentes proximidades de tothi e Samara): um é longa, outro curta; ela está ainda na faculdade, ele já tem produtora própria. Dito isso, pensando em narrativas que escolhem este olhar, talvez o paralelo entre essas duas produções do Centro-Oeste explique meus incômodos com o curta.
Quando tothi filma sua mãe, começa apenas como uma desculpa – pois ela se aproxima das imagens, se apodera delas. Inez dos Santos, mãe de tothi, torna-se codiretora do longa e recebe créditos como tal. Mãe e filho, com o mesmo objeto de observação, em trocas constantes.
Samara opta pelo contrário, apenas expondo um retrato de Emília. O distanciamento fica ainda mais forte quando a protagonista diz do seu passado, em que ela verbaliza com outras palavras que trabalhava de maneira análoga à escravidão quando criança. Esse fato forte, uma camada tão importante para conhecermos Emília, é contada por ela mesma como um acontecimento banal, “foi assim que aconteceu”. E tudo bem, quem vive o que vive não tem dimensão do que lhe acontece normalmente, as dores nas quais caminhou para existir no presente. O incômodo é que Samara junta esse relato forte com imagens de arquivos e do dia a dia que nos desassociam da personagem, que deveria ser o foco. O passado triste e de resiliência de Emília se esconde sob imagens que não conversam com essa força.
Quando o curta-metragem finalmente parece que vai se encontrar, olhar o presente de Emília e sua ida ao forró com a amiga (um momento de lazer para espairecer do cotidiano), ainda assim a abordagem é muito tímida. Como se eu ainda ficasse procurando e não encontrasse Emília no retrato que Samara faz dela, mesmo ela estando bem ali na tela.
No final de tudo, o curta-metragem de Martins Samara parece esquecer do que mais quer falar. Ligadas as luzes da Cinemateca (Partes fechou a sequência da terceira sessão), eu já tinha me esquecido do que vi.


