Por Denise Maria Costa
Em A Gente Faz Amor por Telepatia, dirigido por Gabriella Andrade e Pietra Spindola, o flerte estabelece não apenas o tema central da trama, mas também seu recurso mais significativo para desenvolver o processo de atração entre as personagens principais. O interesse mútuo entre as duas mulheres se desdobra sobretudo através de olhares, expressões e gestos em uma comunicação que trabalha o corpo como instrumento de linguagem.
No curta, os planos-detalhe configuram-se como elementos de destaque, nos quais, movimentos e fragmentos dos corpos atribuem relevância narrativa aos gestos das personagens. Um olhar que encontra outro, uma aproximação aparentemente casual, o toque que não acontece, passam a funcionar como espécie de jogo, no qual cada ação pode evocar uma abertura para o encontro.
O filme brinca com a curiosidade de quem o está assistindo. A dúvida sobre se as duas personagens finalmente vão ter algum contato para além do flerte ou se permanecerão apenas no jogo da sedução fundamenta a narrativa. O curta consegue, dessa maneira, fazer da espera o ponto alto do enredo. Paradoxalmente, o instante em que o beijo finalmente acontece demonstra menos potência do que tudo aquilo que o antecede. Confirmando que a obra parece encontrar maior intensidade na formulação da expectativa do que em sua resolução.
Em determinados momentos, a forma de se expressarem das atrizes parece um tanto engessada, o que reduz a naturalidade da atuação nesse jogo de sedução. Ainda assim, elas sustentam a atmosfera de atração, fazendo com que a trama consiga gerar interesse por parte de quem assiste. Desse modo, A Gente Faz Amor por Telepatia encontra no flerte uma forma singular de desenvolver uma situação aparentemente simples em fruição tomada pelo alcance do não dito.


