Por Duda Pereira
O FIM. Sinal verde, amarelo, vermelho. Escombros e vestígios do que restou da cidade, dos habitantes, dos seus pertences. Poeira sobre o que fica e não tem mais espaço. Resgate sem resposta. De certo, um ensaio colaborativo sobre São Paulo.
Na 9º edição do Metrô, o festival recebeu dois filmes realizados por estudantes da USP, que foram exibidos na Mostra Competitiva. Por isso, começo o texto a partir da impressão causada por essa dupla de filmes que aparece nas sessões “Manual de como lidar com a perda” e “O segredo e a chave”. Diante da experiência do fazer fílmico da instituição paulista, ambos vão lidar com a forma – elemento condicional da maneira como a obra se apresenta – como serviço da narrativa, por dispensar o uso de planos que intensificam a tensão que parecem querer transmitir em algum nível da linguagem. Pelo menos, essa é a impressão sobre partes de Elegia (dir. André Quevedo Pacheco) e Memórias de Nitrato (dir. Guilherme Guedes) que são indispensáveis no exercício de sua análise mas que, sob a intensidade de sequências que vibram ao olhar e divergem desse comportamento frágil da formalidade, perdem a atenção do público. Na reflexão do mito, da cidade e da memória, existe a pulsão de outro gesto artístico, que faz parte desse coletivo de imagens e sons, mas sugere outro caminho. Inserts que se tornam a atração principal, objeto de desejo do espectador sedento por conexão, distúrbio do estável.
Momentos dissidentes resultam na quebra desses filmes em pedaços, que se encontram na unidade formada pelo comportamento da realização. No risco da forma, vemos outro projeto inserido naquele conjunto que deveria ser a obra, de forma narrativa e não intencional, casos, respectivamente, de Memórias de Nitrato e Elegia. Enquanto o primeiro mergulha no imaginário do cinema perdido, na película que se esconde entre sonhos largados, o segundo compõe uma apresentação da cidade e seus símbolos do progresso falido, do ritmo mórbido e da construção que anuncia a chegada de um triunfo dos grandes prédios – destinado ao vazio e impossibilitado à população. As máquinas são motores da exibição, do filme e do futuro. Suas obras são retratos de Orfeu, que foi punido por desviar o olhar para o que não era alcançável. A revisora que não encontra respostas no passado e o advogado carente de um espaço que se importe com a sua condição de morto. A única saída é outra perspectiva.
A resposta de André Quevedo é um corpo que atravessa o plano. Deitado no asfalto como faixa de pedestre, ele ocupa as arestas do terreno. No abandono momentâneo da composição narrativa a passos lentos, explora a jornada de um morto entre edifícios, lápides e escombros. Sua maestria na orquestra, como a trilha musical indica em certos momentos, do ritmo do espaço urbano orna o curta-metragem com o exame da vivência da massa em movimento. A compreensão dessa velocidade em um nível político constrói um panorama sonoro-visual de descontinuidades harmônicas. Como o último plano, no qual acontece um desmoronamento que não atinge o olhar. Figura de linguagem da história nacional.
No exercício metalinguístico de Guilherme Guedes, é a produção esquecida no tempo que rege a busca pela preservação. Seu impacto na vida da revisora transforma a métrica dos planos, assim como a rotina da personagem. O interessante é o rolo de filme deixado por esse diretor que já não pode produzir respostas, que entrega ao destino o seu mito reinventado. O efeito das sequências fictícias dentro da ficção reflete a angústia das imagens sem fim, do casal sem futuro. Apesar dessa tensão não atingir o trabalho de som, que se contém na trilha temática, a potência do movimento desses corpos através do projetor cinematográfico e da mesa de revisão lembra o impulso de Humberto Mauro na criação da expressividade emblemática.
Nesse sentido, é uma dupla que impressiona por sua visão reproduzida na tela de modo alucinante, que convida a plateia a imergir em suas sequências que provocam a ordem. Existe muito entusiasmo na afirmação de que a unidade narrativa é colocada em crise.


