Por Wiliam Tonon
O termo twink, amplamente entranhado na cultura LGBTQIAPN+ contemporânea, é tão comum a nós que até é difícil conceituá-lo. Acredita-se que a “categoria” tem origem no icônico bolinho norte-americano chamado “twinkie”, muito semelhante ao que conhecemos como um bolinho “Ana Maria” no Brasil. Uma pequena massinha de baunilha recheada com um creme branco. A associação é, um tanto quanto obviamente, feita a rapazes cujos corpos são muito específicos: meninos brancos, esguios, de barriga chapada, cintura curvilínea, sem pelos, traços mais feminilizados e, em sua maioria, mais finos. Cabelo liso e olhos claros são opcionais, mas contribuem ao estereótipos desse imagético. A pergunta natural a se fazer poderia ser “essa não seria a descrição de um adolescente?” e, bom, como um mais um são dois, não é difícil perceber do que isto se trata. Esses corpos remetem a uma identidade pueril, dócil e de certa forma passiva.
Posto tudo isso, ver o título Aquiles era um Twink na programação do Metrô Universitário causa um impacto imediato; para além de engraçadinha, é uma afirmação forte. Por mais altas que fossem as expectativas, ninguém estava preparado para o que vimos na sala de cinema. Pela imagem de apresentação no catálogo, Aquiles era um Twink poderia facilmente ser visto como um filme à programa Rá Tim Bum, uma apresentação de slides divertida, irônica, mas informativa sobre o termo twink, a cultura LGBTQIAPN+ e o mito grego. Mas nada disso aqui. Aquiles era um Twink é um filme profunda e irremediavelmente imerso em suas referências de nossa contemporaneidade digital. O risco de ficar datado? Aqui ele é assumido de peito aberto (e ainda bem!).
O diretor Henrique Domingues, um poço de inteligência, não categoriza o twink de forma definitiva. Ele introduz tudo através das imagens que rimam e gritam umas com as outras. Justaposição de imagens que causam outro significado diferentes delas mesmas, no melhor que Eisenstein poderia ter nos ensinado. Primeiro, o mito de Aquiles, com as clássicas pinturas que conhecemos interpeladas por um texto em uma fonte parecida com a do álbum brat, da cantora Charli XCX (mais uma vez, iconografia é tudo aqui). A cena do filme Troia é exibida em velocidade 3. É um fluxo de consciência na mente de um jovem da geração Z e toda sua tempestade de ideias.
Em um gesto de ousadia, somos apresentados a uma tela de celular que abre o Pornhub e navega entre os vídeos na categoria “twink”. Os trechos de vídeos são reproduzidos automaticamente na navegação como previews, afinal, são uma forma de fisgar o usuário a clicar em alguns deles. Algumas figuras bastante importantes aparecem ali, como por exemplo o ator pornô conhecido como “Nanidanielg”, que apesar de representar um pináculo da imagem estereotipada de um twink, é um ator que esteve na posição de ativo em alguns vídeos, o que gerou engraçada discussão na rede social X sobre papéis que os twinks executam (algo que retomaremos mais tarde).
Outra figura também saltou aos meus olhos ali: Austin Wolf, ator pornô que foi preso há um ano e meio por posse e distribuição de pornografia infantil. Wolf já gerava polêmica por apenas colaborar com twinks em seus vídeos (e também anões), garotos geralmente anônimos que, durante o intercurso, eram impelidos por Wolf a dizerem suas idades para a câmera. “I’m eighteen”. A agressividade também é um ponto relevante aqui: Wolf tinha o costume de enforcar esses jovens durante a penetração, em um lugar específico do pescoço, para que eles desmaiassem e recobrassem a consciência durante a penetração no ato sexual.
É aí que vem a maestria do comentário de Domingues. Esses corpos são abordados não apenas na perspectiva de desejo, mas na de sacrifício. Efebos destinados à tragédia. Todas as figuras mitológicas e personagens históricos citados pelo diretor morrem. Isso comunica algo muito claro sobre um tipo de corpo que permeia a cultura popular há tantos anos sem que o próprio realizador precise gritar o tema. É um filme em que as imagens comunicam todo o necessário, seja pelo humor, pela força, pelo erotismo ou pela associação. Coisa rara e difícil de fazer.
Próximo do trecho final, em meio às inúmeras loucuras realizadas por filme, a foto de Juliano Floss entra em cena, arrancando uma gargalhada gostosa da plateia no cinema. Por mais engraçado que seja, essa imagem não deixa de comunicar bastante. Juliano não é gay. Aliás, a grande questão que a internet debateu incessantemente, antes de sua participação no programa Big Brother Brasil, era sua sexualidade. O corpo de Juliano era como a descrição comum de um twink seria. Hoje, o influenciador já ostenta músculos definidos, ombros largos, abdômen definido. Isso o coloca fora da estatística? Não quando Juliano aparece nas redes utilizando uma “cueca de renda” que se torna trend. Juliano performa, apesar da nova forma física, uma feminilidade e delicadeza tipicamente “twink”. É aí que a figura se ressignifica? Ela deixa de ser apenas sobre o corpo e a cintura curvilínea e atinge a delicadeza, a feminilidade, mesmo quando ela vem em um lugar heteronormativo.
Aquiles era um Twink é um torpor. Um frenesi absoluto sobre tudo o que há de belo e ao mesmo tempo equivocado sobre nosso tempo e sobre essa iconografia. Um destilado moderno, referencial e arriscado. Correr o risco de se tornar datado ao retratar, no meio do erótico e do controverso, um tipo de identidade que não se define é admirável. Mais interessante ainda é não limitar a iconografia, é explorá-lá, ampliá-la e discuti-la em sua completude. Relacionando tudo isso com um mito grego que atravessa nossa história? Trabalho que não se vê todo dia. Não à toa o termo guarda-chuva para os homens que se relacionam com outros homens, independentes se gays ou bissexuais, é “aquileanos”. Aquiles era um twink. Aquiles era um bolinho ana maria.


