Por Denise Maria Costa
Realizado como trabalho de conclusão de curso do diretor, Elegia carrega consigo a aspiração em testar possibilidades, de colocar em ação aquilo que foi aprendido durante a graduação e, sobretudo, de descobrir até onde esses elementos podem conduzir uma narrativa. Elegia exibe muitas ideias, formulações, imagens, situações alegóricas e dimensões que percorrem por diferentes recursos que ficam disputando espaço. O que em alguns momentos faz com que o filme se perca.
O protagonista da história está morto. Um advogado que faleceu por ter sido atropelado tenta encontrar um lugar no qual possa ser enterrado no Cemitério da Consolação. Porém, os protocolos burocráticos do pós-vida não permitem que isso aconteça. Em vida, embora o personagem tenha acumulado dinheiro, que ele acreditava garantir-lhe algum tipo de privilégio, seus traços hereditários indicam que ele não tem o perfil necessário para pertencer àquele espaço de descanso eterno. O fato de ser um homem negro, que veio de origem humilde, faz com que ele seja descartado, mesmo depois de ter ascendido financeiramente.
A reflexão direcionada à ideia de que “nosso passado pertence à morte”, que é mencionada no próprio filme, parece atravessar Elegia de forma particularmente intrigante. O passado é o responsável por determinar o lugar que vamos ocupar diante da morte, os mortos continuam carregando e conservando sobrenomes, origens, privilégios e exclusões. A morte não iguala os corpos, mesmo depois dela. As marcas que a sociedade produziu sobre eles persistem em permanecer. Dessa forma, a quantidade exacerbada de informações deixa a experiência de assistir ao filme, em alguns momentos, cansativa. Contudo, ainda que Elegia se perca em meio às próprias alegorias que pairam pela narrativa, há algo significativo nas ponderações que constrói acerca da morte. Ao apresentar um homem diante dos entraves que permanecem mesmo depois de morrer, o curta questiona o que realmente perdura quando tudo parece ter acabado: a classe, a ascendência, a memória e os lugares de pertencimento.
Talvez seja justamente nessa contradição entre o excesso e a potência de suas questões que Elegia encontre seu maior interesse. Se às vezes ele se perde no excesso, talvez seja precisamente no conteúdo relacionado à morte que consiga oferecer de volta algum sentido ao seu percurso. Afinal, quando já não há dinheiro, status ou posição social que possam colaborar com nossa “salvação”, resta perceber que nem mesmo diante da morte somos plenamente livres daquilo que herdamos. O corpo morre; as desigualdades, não.


