Por Denise Maria Costa
Inferno de R.H., dirigido por Arthur Machado de Oliveira, constitui seu lado cômico a partir de uma premissa tão surreal quanto familiar: o inferno é organizado como um meio corporativo. É difícil deixar de estabelecer um paralelo com o filme Os Fantasmas se Divertem, de Tim Burton, sobretudo pela elaboração de um pós-vida como um ambiente burocratizado, condicionado a regras, e procedimentos administrativos enfadonhos. Entretanto, o curta transfere essa concepção para uma perspectiva contemporânea, utilizando o humor para discutir as relações de trabalho e a exploração do trabalhador.
A direção de arte desempenha papel essencial nessa composição. A caracterização do lugar não está vinculada apenas aos componentes tradicionalmente associados ao imaginário popular relacionado ao inferno, mas da articulação entre esse universo e a dimensão formal de uma repartição. O inferno, nesse sentido, não requer ser retratado como um local de castigo, dor e sofrimento físico, portanto, é representado pela burocracia e nas cobranças que surgem.
A exploração do trabalho nos é demonstrada através de acontecimentos que têm correspondência com condutas que são incorporadas ao dia a dia do trabalhador. Quando o Diabo exige que sejam feitas horas extras, por exemplo, traz uma cobrança que é revestida de uma cordialidade dissimulada: o patrão “exige com carinho” que seus funcionários permaneçam no trabalho. A agressividade da exploração, assim, não aparece necessariamente de forma abusiva, mas camuflada por construções discursivas de cooperação, comprometimento e vantagens. A pizza que o Diabo disponibiliza como recompensa, pelas horas extras de seus funcionários, reforça essa crítica. O lado cômico do filme surte efeito justamente porque sinaliza a disparidade entre aquilo que é imposto ao trabalhador e aquilo que ele recebe em troca. O reconhecimento simbólico e insuficiente, por parte do patrão, configura-se em estratégia humorística, mas também expõe a naturalização de um sistema no qual ser explorado pode ser visto como privilégio. Assim, Inferno de R.H. faz uso do insólito como uma maneira de dar visibilidade àquilo que, no cotidiano, muitas vezes é normalizado.


