por Maria Eduarda Glodsienski
A memória se materializa em arquivos VHS digitalizados em Castelos de Areia (2025), curta-metragem dirigido por Giuliana Zamprogno e exibido na 8ª edição do Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro.
No filme, a diretora nos convida a um passeio por sua infância para conhecer Nino, seu pai já falecido. O encontro é paradoxal: nem ela mesma chegou a conhecê-lo de fato, já que o perdeu quando tinha apenas dois anos de idade. O filme, então, enfrenta o dilema de aprender e se aproximar de alguém somente após sua ausência, reconstruindo sua imagem por meio de memórias fragmentadas. Nesse sentido, a obra se aproxima do longa Neirud (2023), dirigido por Fernanda Faya, que também conduz o espectador por uma jornada de descoberta póstuma, em busca de quem realmente foi a personagem central depois de sua morte.
Os temas podem ser um fator de aproximação entre Castelos de Areia e Neirud, já que ambos se lançam ao desafio de conhecer alguém após a morte. No entanto, o curta de Giuliana Zamprogno se diferencia sobretudo em sua montagem, que constrói camadas tanto visuais quanto emocionais, fazendo o espectador partilhar com a diretora o excesso de sentimentos e sensações desse reencontro.
Sua não linearidade se desdobra em sobreposições de imagens e sons que intensificam a experiência. As vozes ao fundo, o riso incessante da criança, as notícias da televisão e as paisagens em movimento vistas pela janela do carro se acumulam em um tecido audiovisual que é ao mesmo tempo sensível, tátil e visual.
Nesse gesto, o filme ganha corpo. Giuliana cria uma verdadeira amálgama de sentimentos no público, transformando a montagem em um espaço de materialização da memória; em um reencontro íntimo com as fitas e com o próprio pai, que, ainda ausente, se faz presente nas lacunas e nos excessos que compõem a obra.



