por Juno Lima
“Amigos de Risco”, filme da sessão de abertura da 8a edição do Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro, dirigido por Daniel Bandeira, nos faz reviver aquele “rolê amaldiçoado”, do qual muitos de nós já fomos vítimas.
Nas ruas de Recife, as que os turistas não chegam a conhecer, acompanhamos o tal “rolê”. De rua em rua, Nelsão (Paulo Dias) e Benito (Rodrigo Riszla) carregam o amigo o moribundo Joca (Irandhir Santos). Vemos as situações armadas filmadas em plano aberto, com o duo lentamente carregando aquele peso morto, de um ponto a outro da tela e da cidade. Vemos o suor que vai impregnando as roupas, a sensação de desespero entre as personagens crescendo, e a rua, com suas luzes ríspidas, do amarelo ao branco estourado, nos embalando noite adentro desse pesadelo.
Antes do pesadelo houve, porém, a esbórnia. De pico em pico, ainda no começo do filme, chegamos num inferninho onde são colocados em cheque vacilos anteriores de Joca e o porquê de sua fuga da cidade para a qual voltou. A razão dessa reunião existir é justamente esse retorno. Ocorre também uma breve discussão entre os amigos, que se conclui com Joca se retirando, e, no caminho, arrastando consigo uma garota de programa.
Em diferentes momentos, há uma dificuldade de compreensão das palavras ditas pelos homens na tela, mas elas também parecem poder ser mero adereço: se entendeu, ótimo, se não, o balé das personagens vai te situar. E que balé! É certo dizer que há uma coreografia de movimentos ali, nos amigos carregando Joca; uma coreografia a serviço de nos colocar a rimos da situação escabrosa em que Nelsão e Benito se encontram, remetendo-nos às comédias físicas e críticas de Keaton e Chaplin.
Aqui vale destacar o trabalho corporal incrível de todos os atores para viabilizar esse “balé peso morto” pelas ruas de Recife, sendo o principal destaque a atuação de Irandhir Santos em seu primeiro papel na carreira como protagonista de longa-metragem.
Em meio aos descalabros, Nelsão e Benito vão se questionar até onde podem ir por seu amigo Joca, e quando é hora de cortar o laço. A percepção tem início ainda na cena do inferninho, quando a prostituta com quem Joca se retirou volta à mesa dos amigos, chamando Benito e Nelsão para irem ao quarto. Lá vemos Joca desacordado, jogado na cama, e, tão rápido quanto chega, a cena de uma carreira de cocaína em cima de um espelho se vai, nos dando o panorama da situação. É a partir daqui que Joca, desacordado, é arrastado até a conclusão do filme. Os amigos se propõem a carregá-lo até o hospital, sem transporte, sem celular. No caminho, novos vacilos do protagonista vão sendo revelados, e então vemos o fio da amizade se desgastando até romper de vez. Sentimos no filme quando a amizade entre as personagens vai se perdendo, quando todo o esforço pelo outro não vale mais a pena, quando só há desgaste.
Quando estão finalmente chegando ao hospital, a corda finalmente se parte por completo. Benito atende uma chamada do celular de Joca e quem responde do outro lado da linha é sua ex-mulher. Ela nos foi apresentada no início do filme, por flashbacks intrusivos, que vão e vêm sem ser anunciados. São momentos em que o filme nos conta que ela abandonou Benito e o quanto ele sente sua falta. São lembranças ligeiras que invadem a mente do personagem. E isso nos leva para o final da jornada.
No ponto de ônibus quase próximo ao hospital, vemos apreensivos Nelsão e Benito colocarem Joca deitado no banco, seus sapatos no chão. O ônibus se aproxima. Benito faz sinal. O veículo entra na parte direita da tela, se demora, nos dando tempo para imaginar Benito e Nelsão levantando Joca, seus sapatos ficando para trás, e todos entrando no ônibus. O ônibus sai do quadro. Lentamente, vemos que o sapato ficou, e Joca também. {
A dedicação e preocupação que Benito e Nelsão têm por Joca se torna aparente, mas a cada vacilo desse, no quebra-cabeças imagético que o filme nos propõe, nos deparamos com a sensação espelhada do que as personagens parecem estar sentindo. Assim, chegamos a um final que se revela apoteótico, no qual simplesmente ficamos sem argumentos para defender Joca, e sem argumentos também para discordar de Nelsão e Benito. Afinal, é mentiroso quem diz nunca ter tido um amigo vacilão.



