por Malcom Rios Farias
Se tudo que é sólido desmancha no ar, “Castelos de Areia”, curta-metragem dirigido por Giuliana Zamprogno exibido na oitava edição do Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro, consegue transformar uma vida passageira em eterna na memória dos espectadores. A diretora faz uma autópsia de vídeos gravados por e sobre seu falecido pai, o médico Nino Zamprogno.
A obra caminha por uma linha tênue, uma corda bamba que permeia os filmes de arquivo familiar: o sentimentalismo. Além de “Castelos de Areia”, os dias com ele” (2019) de Maria Clara Escobar, “Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil” (2020) de Carol Benjamin e “Pan-Cinema Permanente” (2008) de Carlos Nader também são exemplo (curiosamente todos são feitos ou tem participação dos filhos dos protagonistas).
Podemos dizer que os melhores desses tipos de filme são aqueles que colocam uma distância entre o eu realizador e o sujeito retratado. Sendo esse um distanciamento crucial para não alienar o espectador em relação ao seu lado humano mais sensível, mas também para não cair no abismo do sentimentalismo barato.
Nesse sentido, “Castelos de Areia” se mostra ainda mais veemente ao se distanciar e, assim, desconstruir sua figura principal. Em determinado momento, Nino Zamprogno é mostrado em uma sala com várias pessoas, usando uma peruca de fios longos e coloridos. Ele se apresenta aos presentes performando, de maneira jocosa, trejeitos afeminados. Para os mais conservadores, esse momento de descontração poderia ser visto como descabido. Mesmo assim, Giuliana escolhe colocá-lo no filme.
Em outro instante, Nino briga com a irmã de Giuliana para que ela não machuque a versão criança da diretora ao brincar com ela. O pai das garotas repreende a ação, dizendo: “Tá crucificando a menina!!”. É risível, ao mesmo tempo que deixa palpável a repreensão do pai e o possível medo que ela causava.
Aqui é possível ver a travessia da corda bamba que o filme completa com maestria. Ao mostrarem Nino como carismático e também severo, momentos como os anteriormente destacados o humanizam, colocando em cheque a tendência de endeusamento de personagens protagonistas de filmes documentais ensaísticos, por exemplo.
Ao mesmo tempo que o filme discorre sobre a vida de Nino e as memórias da sua relação familiar, ele também enfatiza sua morte. Ao sobrepor o arquivo com imagens de bioeletricidade, cria-se um aflitivo lembrete de seus últimos momentos. O choque elétrico recebido por ele permeia as imagens da obra como um constante lembrete da passagem curta e angustiante de uma vida interrompida por um acidente.
A máxima desse aspecto vem na cena em que vemos um músculo bovino destacado. O pedaço de carne vai sendo destruído por choques elétricos juntamente com a fala da esposa de Nino sobre como seus dedões viraram vulcões. Uma imagem (narrada) que, reforçada pela carne em destruição na tela, só pode ser imaginada como visceralmente dolorosa.
Após passear por essas memórias, o final arrebatador é a maior das ondas na praia. Nino filma alguém, que pode-se presumir que é sua esposa. Ela está andando na direção contrária, se afastando. Ouve-se Nino falar: “Olha pra cá”. Ela nunca olha. Mas todos nós olhamos.



