por William Tonon
A primeira sessão competitiva do Metrô abre com uma piadinha de 5 minutos chamada Paty. O curta se inicia com uma coelhinha saindo da cartola e a comum frase de início de apresentações circenses: “Senhoras e senhores, respeitável público {…}”. Escolha inspirada para uma abertura de sessão. Apesar do tema espinhoso do curta, existe um humor bastante deliberado no grafismo de ver um pênis de um idoso ser cortado com uma tesoura de ponta por uma palhaça excêntrica em um ponto de ônibus; tudo isso em uma animação extremamente rudimentar.
A diretora, Maria Luiza Staut, descreve o filme como uma experiência de misandria. Misandria, que significa uma aversão ou hostilidade generalizada ao gênero masculino, se encaixa muito bem no tom bem-humorado que o curta usa para refletir a cultura do assédio, abuso e estupro. É uma fantasia óbvia, quase um pensamento intrusivo, a mutilação do órgão genital de um abusador, e talvez seja por isso que aquele grafismo quase didático seja extremamente satisfatório, no fim das contas. E por que não retratar este delírio de vingança em uma animação? Afinal, é o meio do lúdico, do imaginativo e do inventivo. Apesar das limitações de decupagem que uma animação independente impõe, é mais uma escolha inspirada.
Ao longo da sessão, acompanhamos mais quatro narrativas de formatos e intenções variadas, mas todas com um ponto central: o feminino em evidência. No curta seguinte, Cecelia, inspirado na obra da cineasta Cecelia Condt, acompanhamos uma personagem feminina em uma espiral de loucura em vermelho e um delírio a la cottage core envolvendo cordeiros. Embora a referência seja Condt, é Lynch que vem à mente assim que os créditos entram em tela. Cinema de sonho e pesadelo.
Se no filme anterior tínhamos uma perspectiva mais irônica de uma violência, aqui a personagem feminina é posta em crise pela própria identidade. É uma lástima, no entanto, que a decupagem não acompanhe a intenção. Ficamos estáticos diante daquele devaneio, nunca participamos dele.
Na sequência, talvez o momento mais sublime da sessão, somos abordados por um filme que não apenas nos convida, mas nos sequestra no porta-malas do carro de suas carismáticas protagonistas. Em O Fim da Festa conhecemos as amigas Alice e Luiza em uma situação improvável: o atropelamento de um alien. A partir daí se desenrola um road movie cheio de peripécias como se poderia esperar ouvir em uma chamada da Sessão da Tarde.
Vale destacar o quão tecnicamente redondo é O Fim da Festa. Um arco narrativo claro e bem definido em uma experiência de gênero não são as coisas mais fáceis de se fazer em um contexto universitário; nem mesmo são muito incentivadas, diga-se de passagem. O cinema universitário tende, em certos ambientes, a prezar pela experimentação e ruptura de convenções, que são absurdamente bem-vindas, mas é refrescante encontrar um filme tão empenhado em ser por si só uma experiência envolvente e satisfatória com uma narrativa clássica de uma (quase) screwball comedy.
Mesmo sem se explicitar, o filme é altamente queer, em um trabalho de construção minucioso que vai desde a direção de arte, figurino ao envolvimento das atrizes em cena, que dão um show de simpatia ao incorporarem adolescentes desesperadas diante de uma situação inesperada. Existe um elemento tão forte de companheirismo entre as duas a qual é impossível ficar incólume ao filme e não se juntar a seus gracejos.
Apesar dos tropeços aqui e ali, é impossível também passar incólume ao curta seguinte: Lena, da diretora Lanna Carvalho. Nos primeiros minutos, pensei estar assistindo a um curta documental, tamanha a organicidade da interação das duas atrizes em uma linha de diálogo boba que menciona tupperwares que custaram R$ 2,99. Uma dessas atrizes é a mãe da diretora, a quem o filme é dedicado. O que acompanhamos a partir daí é uma sutil composição de um dos vínculos mais íntimos entre mulheres: a maternidade, especialmente no momento em que a síndrome do ninho vazio pode chegar.
É curioso que O Fim da Festa e Lena poderiam ser considerados os filmes mais redondos da sessão; talvez os que menos se arriscam ou cujos temas já foram antes retratados, mas aqui eles são destaques justamente por segurarem tão bem assuntos que se relacionam com a vivência de cada espectador (não à toa foram os mais aplaudidos). A cena final de Lena é de uma simplicidade tão delicada que, neste contraste, acaba revelando toda a potência do curta.
Ainda mais curioso é observar que, até o presente momento, as mulheres estão no centro nessas narrativas, no controle (ou não) das situações que as cercam. No entanto, no último curta, lugares em florianópolis em q vc não está, é o contrário: a presença feminina é um vestígio; uma fantasma na mente do protagonista que ele precisa, a quase todo custo, reencontrar. Através de arquivo, acompanhamos a busca deste interlocutor pela mulher que conquistou seu coração em um show da cantora Madonna. É quase como assistir Cinderela, só que pela visão do Príncipe. Mas é estranho não conhecê-la. É estranho não saber qual de seus encantos (ou desencantos) o fisgaram. Mas a tessitura incomum das imagens cria uma experiência curiosa para além da procura da nossa Cinderela. Afinal, não é a linha de chegada, mas sim a corrida que importa.
Esta foi uma sessão, como se pode perceber, plural, mas ao mesmo tempo uníssona. Mais do que uma experiência de “cinema de virada”, como o texto curatorial descreve, esta foi uma sessão feminina em sua totalidade, mesmo quando o feminino foi retratado através de sua ausência. Suas mais diversas formas, vontades, desejos, arestas foram retratados das mais inusitadas formas dentro de sessenta e quatro minutos. É interessante destacar que, na ordenação, a sessão abre com uma mazela social, navega por conflitos de identidade, gênero, e se encerra em uma perspectiva subjetiva e até mesmo mais otimista sobre a vida. Essa sessão é, ela própria, além de feminina, uma virada.


