Por Duda Pereira
2004, Ano Novo. Através da tela de uma cybershot, os fogos que anunciam uma virada temporal, uma disputa contra as novidades pessoais e as mudanças assustadoras. O Fim da Festa é uma dessas surpresas de uma onda de realizadores inspirados pelo New Queer Cinema, que rejeitam o julgamento moral de filmes normativos e criam uma nova forma de comunicação. A linguagem própria desse cinema vai permitir o uso inventivo dos excessos em seu visual. Sob a direção de Tainá Lobato, essa característica adere ao filme um tom impressionante, entre a comédia e o drama sessão da tarde, planos dinâmicos se articulam com uma estética alucinante. A impressão é a de que o espectador é convidado a participar dessa festa e imaginar que é sim possível atropelar um extraterrestre. Sabe-se a realidade, mas o imaginário é muito charmoso.
No debate pós-sessão, a realizadora destacou que o filme foi uma construção coletiva, em que todos os envolvidos estavam muito dedicados a fazer o projeto acontecer. Interessante é que, mesmo sem a sua fala e a logo do grupo evidente no final dos créditos, é notável a presença de uma força conjunta em direção à possibilidade de uma criação independente e representativa. Se é possível dizer que o cinema universitário narrativo tem uma certa identidade, esse é um exemplo a se notar. Um curta-metragem que é tão admirado por uma imagem distante de um naturalismo tradicional do cinema comercial. Aqui, a imagem é foco de transições divertidas e imersivas, com dispositivos de gênero que lembram as gags do cinema de atração e a imagem dos road movies dos anos 2000.
O medo da mudança é motor dessa aventura em cena, em que quase tudo está a favor da fantasia das protagonistas, inclusive o próprio filme. Existem mil e uma formas de lidar com o fim do mundo pessoal.
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Uma cybershot à disposição e 30 minutos disponíveis para gravar no espaço, desse dispositivo que obriga o realizador a controlar o registro do que é importante, ao mesmo tempo que revela a sua vontade de limitar a criação. Disso resulta o que gostaria de chamar de filme-viagem, em que um viajante marca o que vê com a câmera, esse mecanismo que adquire uma característica de mapa, com intertítulos que indicam os lugares em que passou. Ou então um filme-busca, em que o cineasta vai em busca de uma paixão e encontra, em seu destino, vestígios dessa pessoa procurada. Um encontro é uma lembrança que provoca vontades futuras.
O show da Madonna foi uma explosão de (des)encontros que resultou em narrativas espalhadas pelo tempo-espaço. Um evento que inspirou algumas realizações a se espalharem por festivais e plataformas ou ficarem guardadas como lembranças no acervo pessoal dos visitantes da praia de Copacabana. Seja como for, foi o que trouxe lugares em florianópolis em q vc não está a vida. Além, é claro, do cinema de Jonas Mekas. A qualquer momento, em qualquer lugar, a possibilidade de documentar a vida.
O cinema de fluxo aproxima o público à duração real da passagem do tempo, em que a narrativa-clássica é desmembrada e reorganizada em uma nova relação com a espectatorialidade. O curta-metragem parece seguir essa vontade de uma nova linguagem, ao retratar Florianópolis em planos longos, sem cortes em função das transições. A esse visual, adiciona-se a beleza da imagem tátil, dos pixels que não se escondem do olhar atento à tela. O diretor entende que a memória se assimila a esse aspecto vestigial do curta-metragem. Se o seu registro é passível de preservação, ele parte de um lugar que não tem a mesma sorte. Registramos porque não confiamos na memória como fonte? Criamos porque essa nebulosidade é justamente o vigor das ficções?
O curta-metragem se traduz em um plano sensível: uma dupla de ruídos e granulados ao som de música dançante. Uma personagem-fantasma cuja presença se faz visual por meio de sombras, paisagens e detalhes travados de um rosto eufórico por diversão. Um filme em que a fabulação encontra a beleza do documental como ato extraordinário em tempos de esgotamento imagético. Optar pelo retorno ao aparelho limitado é escolha que permeia uma geração de obras por vir e outras que já estão aqui, diante de uma plateia em contato com a produção universitária exibida na Cinemateca de Curitiba.
É, nesse sentido, que parece existir, entre os filmes de Tainá Lobato e de Marcos Gabriel Faria, um encanto pelas possibilidades do digital, em emular novas texturas e relembrar, por exemplo, tempos de películas, através dos ruídos e granulados provenientes do aparelho gravador ou de dispositivos de pós-produção. Dessas obras, temos duas narrativas sobre partidas, memórias e o poder dos encontros. Cada uma, à sua maneira e dispositivo, reforça a presença da lembrança como metamorfose em algo novo, em dois curtas que conversam num sentido que só pode ser adquirido através da experiência transformadora da organização de uma exibição em sequência.


