Por Denise Maria Costa
Em Paty, a diretora Maria Luiza Staut parte de uma situação que se mostra assustadora para a maioria das mulheres: estar sozinha à noite em um espaço deserto e perceber a aproximação de um homem que representa uma ameaça. O contexto apresentado mobiliza todo um imaginário social desesperador já conhecido: a mulher que precisa permanecer atenta a toda e qualquer movimentação, calcular para onde é possível fugir, como pode pedir ajuda e reconhecer antecipadamente os sinais de um possível agressor. O horror, portanto, não está inicialmente em um acontecimento fora do comum ou sobrenatural, mas em uma situação cotidiana que escala para uma situação de perigo.
É justamente nesse ponto que o curta realiza uma ação interessante. Em vez de acompanhar a mulher, que nos é apresentada inicialmente, Paty introduz outra figura feminina que vamos acompanhar até o desfecho: a Palhaça. Sua presença move a narrativa de um estado de medo para a reação. É uma mulher que vai ao auxílio daquela que precisa de ajuda.
No entanto, a mulher que protege não é representada de maneira convencionalmente heroica, o que torna a narrativa mais instigante. Ela é uma palhaça, um ser estranho e figura um tanto assustadora. O que poderia simplesmente ser associado a um corpo descontrolado e monstruoso funciona no enredo como instrumento de proteção. A Palhaça não abandona sua monstruosidade para tornar-se heroína. É justamente sua monstruosidade que possibilita que ela salve outras mulheres. E é no homem que tem a intenção de abusar mulheres que se encontra a verdadeira fonte do horror, enquanto o ser que, dentro de narrativas clássicas, geralmente ocuparia o lugar do monstro, passa a operar como quem protege a quem precisa de ajuda.
A violência cometida pela Palhaça contra o agressor chama a atenção, pois o curta não parece necessariamente querer transformar seu ato em um gesto para ser desenvolvido como resolução institucional. Pelo contrário, a resposta é física, gráfica e desprovida de pudor. A violência que ameaça e ataca o corpo feminino é devolvida ao corpo daquele que a produz, ou tem a intenção de produzir, e pode ser lida como uma fantasia de reparação diante de toda a impotência e atos misóginos produzidos com o aval da violência patriarcal. Quando as instituições falham, quando o meio em que vivemos naturaliza o medo cotidiano feminino e quando a punição aos agressores não acompanha a dimensão da violência que eles praticam, o horror gera um espaço imaginário no qual a vítima finalmente pode reagir, revidar e contar com alguém que vai magicamente aparecer para ajudá-la.
Em Paty, a mulher não precisa deixar de ser monstruosa para ir ao auxílio de outras mulheres. É justamente quando a monstruosidade é apropriada como potência que ela pode responder e revidar à violência que ameaça o corpo feminino.


