Por Duda Pereira
O luto transforma diversos pedaços do mundo e, no caso de A Estrela-ilha e o Peixe-pássaro, impulsiona quem fica em direção a uma jornada de resgate da vida. Vestígios de glitter na pele parecem indicar que o afeto deixa marcas por toda a parte. Através da estética sensível do amor, Áquila Félix e Nadí Silva criam uma narrativa poética sobre dor e autodescoberta. É notável o retrato íntimo da falta, com registros que se apoiam na abstração da linguagem para se conectar com o público em outro nível, que ultrapassa a racionalidade e exige um consumo da obra distante da forma consolidada pelo cinema clássico-narrativo. Um cinema atmosférico que provoca o corpo e a sensorialidade.
As texturas do universo fantástico vivido pelo protagonista invadem a tela de uma forma que desafia a construção da mise-en-scène, incorporando a duração real da cena como dispositivo de corporeidade, mesmo nos limites do tempo do próprio filme. Existe um ritmo próprio que rege as relações apresentadas na narrativa. A sequência de encontro de Samu e Mearim evoca uma tensão elaborada pelo misticismo, no qual a ponte entre o real e o imaginário se dissolve em admiração. No esconde-esconde de rostos apaixonados, o público participa da brincadeira dos primeiros olhares e do interesse oculto entre velas e água.
Nessa dinâmica, o mais interessante é a forma que a realização associa o afeto a uma jornada, do mito reinventado como pulsão do corpo em movimento – amor que não se dissolve, mas se transforma ao longo do tempo. A tradução desse sentimento em metamorfose dá ao curta-metragem qualidade impressionante no domínio da linguagem sensorial. Sua estética refinada encanta com a delicadeza no tratamento da temática principal. A mãe, como guia materna da saudade, entrega ao filho o caminho de volta ao princípio – brincadeira na água e carinho que transborda.


