por Manu Couto
não sei dar afeto
se não for direto
não quero lutar taekwondo
nós
não vamos dar certo
mas fica por perto
“Taekwondo”, por Pianocoquetel
A Sessão Competitiva 3: Novos Românticos dispõe de um charme discreto. Trata do amor não pela sua paixão, sua intensidade, aquilo que arrebata, mas por sua delicadeza, os detalhes que surgem e fazem toda a diferença. Esmiúça os amores em filmes que tratam mais da ausência do que da presença, encontrando a beleza nos pequenos momentos de conexão. Como um crush fugaz que você encontra no ônibus, mas que desce antes de você ter coragem.
É exatamente essa vivência que Estação Passagem explora. Fábio pega o trem todos os dias para ir trabalhar. A viagem é longa, deixa muito tempo para sonhar e ele acaba apaixonando-se pelo menino do banco da frente. O diretor mostra esse encontro com um misto de ingenuidade e tesão, inventivo em seu jeito de filmar.
As limitações parecem ter feito bem ao filme, que explora as poucas locações com curiosidade. Pensa em planos de uma outra forma, não se utiliza apenas do lugar-comum da câmera. Fica na memória o creme de cabelo que, em cena, se transforma em gozo. Sua artificialidade amadora contribui para uma ambientação quase onírica de uma narrativa que concretiza um sonho comum: falar com o crush do transporte público. Pena que esse romance cotidiano se encerra com um áudio de Whatsapp, mas é um dos finais mais potentes do festival.
A Estrela-ilha e o Peixe-pássaro também alça voos por uma construção lírica e onírica, mas empenha-se tanto em ser poesia visual que acaba oco. A busca pela transposição do poema/música navega por diversas experimentações visuais pontuais, que se alternam tanto que lhes falta a profundidade da repetição. Parece tão interessado em transformar o plano em estética que se esquece de construir algo para além, ainda que haja mérito em fazer do luto uma experiência colorida. É bonito o jeito que filma os momentos na água, sem medo de molhar a câmera, de chegar perto demais dos personagens. É um espaço onde o filme se solta.
A Gente Faz Amor por Telepatia é um filme que mapeia, tateia, apalpa um lugar curioso de não querer mostrar o que se quer ver. Um filme envergonhado de ligar as luzes durante o sexo de um jeito que transforma o tesão em algo ainda mais desejante. Os close-ups nos olhos, na boca, no pescoço deixam explícito o algo a mais que ficamos a imaginar. Essa potência diminui no momento que vemos, ainda que de maneira tímida, qualquer tipo de ação. O curta deixa de desejar.
Impossível começar falando de Janete sem iniciar com o final. Esperamos uma atitude apocalíptica, talvez ciumenta, da robô apaixonado que bate na porta, mas encontramos uma saída não-monogâmica. Ela apenas entra no quarto com sua dona/amor, deixando o resto a imaginar. Embora Janete não caia em clichês no jeito que lida com a história de amor de uma mulher e seu aspirador de pó, a maneira com que filma essa história costuma ficar em um lugar comum. Ainda assim, há momentos interessantes, principalmente quando a diretora escolhe explorar o espaço do apartamento. É uma cena que não se esquece tão facilmente: o robô que carrega um cinzeiro e vai de um lado pro outro do plano, a mulher na rede que joga as cinzas do cigarro de acordo com esse movimento. O filme brilha quando explora mais Janete do que a protagonista, ousando imaginar enquadramentos que tentam pensar a perspectiva da robô.
Com Partes de Mim Que Esqueci, encerra-se a mostra em uma nota simples, que carrega leveza apesar de temas complexos. É um filme que carrega um esforço bonito, perguntando-se: quem é minha mãe, além de ser minha mãe? Apesar disso, a câmera parece tão admirada que se torna tímida e a aproximação torna-se um distanciamento. Saímos da sessão sem conhecê-lá, mas com vontade de ir num forró com ela. Afinal, a protagonista ainda cativa.
É uma sessão que se interessa por amores que não se resolvem, que preferem manter-se como perguntas não-respondidas. Procuram deixar em aberto, sempre sem certezas. São filmes que nos instigam a manter uma relação com eles, mesmo sabendo que pode não dar certo.


