por Malcom Rios Farias
“Dobra”, curta-metragem de Mariene Belarmino exibido na 8ª edição do Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro, oferece um retrato sublime da rotina de Aziza (Clau Barros). O coração do espectador é acalentado por gestos cotidianos que, diante da câmera, se transformam em poemas delicados. Esse cotidiano, no entanto, é subitamente atravessado pelo encontro com um manto azulado e enigmático presente no varal da casa da protagonista. O tecido interrompe seus hábitos domésticos, convoca suas memórias adormecidas e alavanca a presença de uma figura quase que fantasmagórica na casa. Minimalista, a trama abre espaço a múltiplas leituras sobre a figura misteriosa evocada pelo manto.
As cenas são imersas em uma paleta de cores cuidadosamente concebida por Williane Ferreira, cuja opção por um gloom intenso e deliberado acentua a potência poética da atuação. Já o desenho de som tenta reforçar a tensão com o tic-tac insistente de um relógio, mas essa cadência acaba deslocando a poesia. A insistência sonora chega a perturbar não como ruptura, mas como redundância – e justamente por isso contrasta com o que há de mais belo na obra.
Partindo para um referencial clássico do cinema de mulheres que também coloca em protagonismo a relação feminina com o ambiente doméstico, lembramos de Jeanne Dielman (1975). Se nesse filme, que é considerado uma das melhores obras cinematográficas de todos os tempos, Chantal Akerman constrói a melancolia da repetição por meio de planos fixos, em “Dobra” Mariene prefere a respiração da câmera, que se aproxima e se afasta dos gestos de Aziza dentro de casa para revelar poesia no banal: a atenção à água que começa a ferver, à roupa que se dobra e se estende, aos cacos de um copo quebrado devido a um susto e que são recolhidos.
O sublime não nasce de grandes acontecimentos, mas do modo como Clau Barros transforma cada gesto em expressão. Ela imprime uma delicadeza que transborda o mero hábito. Esses atos, tão corriqueiros em sua essência, ganham um peso inesperado: não são mais simples tarefas mas sinais de uma beleza secreta que se revela apenas no instante em que são observados. É nessa conversão do mínimo em grandeza que a atuação de Barros se torna vital, pois seus gestos, ao mesmo tempo íntimos e universais, elevam o filme a uma dimensão de pura experiência estética.



