por Maria Eduarda Glodsienski
Ao projetar a mesma imagem por cerca de cinco minutos na tela, “Viagem no Tempo”, curta-metragem de Pedro Bournoukian exibido na 8ª edição do Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro, desafia o espectador a encarar um dos clímax de um jogo de futebol (especificamente do Palmeiras, neste caso): o momento em que o jogador se prepara para cobrar a falta e o goleiro, para defender. Esse momento, de suspensão e expectativa, torna-se o eixo a partir do qual se articula não apenas a narrativa esportiva, mas também a memória pessoal que o filme convoca.
O curta recupera a lembrança de uma partida que teve um pequeno trecho registrado em vídeo enquanto era assistida ao vivo pelo diretor-narrador junto a seu pai. Para eternizar esse instante, o diretor recorre a um antigo colega e o solicita que, com o uso de inteligência artificial, tente congelar um frame da filmagem e virá-lo ao contrário para revelar quem constrói as imagens. A ideia seria, assim, criar o que seria o único registro visual que o diretor teria ao lado do pai.
As informações sobre o filme se estruturam a partir da oralidade e, consequentemente, do som, que acaba funcionando como um eixo condutor da narrativa. Por meio de áudios de WhatsApp, a voz em off do narrador-diretor a todo momento rememora o evento e instaura um mergulho íntimo em uma história que se constrói para a escuta de quem assiste.
Quando, ao fim do curta, o arquivo de vídeo se revela em sua totalidade e o áudio original do conteúdo irrompe pela primeira vez, testemunhamos o desfecho da partida. Entre gritos abafados e imagens fragmentadas, vemos comemorações captadas por uma câmera trêmula.
Ao reiterar a sequência de imagens do jogo que se reconfiguram à medida que dialogam com a narração, o filme abre espaço para uma experiência de espectatorialidade ativa. Passamos a tentar completar o que escutamos em áudio e, na expectativa de consumação da peripécia tecnológica solicitada e sonhada pelo narrador, nossos olhos vasculham a tela em busca dos dois, pai e filho, ainda que por um mísero segundo. Porém, resta – a nós e ao narrador – apenas a frustração da ausência.
A sensação demonstra um mérito do filme em conseguir fazer uma memória pessoal e suas vontades de expansão se converterem em memória e vontade partilhadas; em fazer o tempo do cinema se confundir com o tempo da lembrança.
Em sua economia de meios — imagens simples e efêmeras de arquivo entrelaçadas à voz narradora — “Viagem no Tempo” revela a potência do cinema universitário em transfigurar eventos já tidos como comuns em gestos poéticos. Não se trata de grandiosidade técnica, mas de sensibilidade em compreender que o impacto narrativo pode emergir da construção de uma escuta atenta.



