por Ana Clara Grama
“Muito Permanece”, curta-metragem exibido na 8ª edição do Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro, revela logo de início preocupações estéticas bem marcadas. Há planos cuidadosamente compostos, como aqueles que sugerem uma equiparação entre as marcas do corpo envelhecido da protagonista e as rachaduras e manchas das paredes de sua casa. Uma construção imagética que sugere uma tentativa de aproximação poética entre espaço e personagem, entre matéria e memória.
À primeira vista, a proposta é promissora. Entretanto, a camada visual não encontra um desenvolvimento dramático consistente. O paralelo entre a deterioração da casa e a velhice da personagem, por exemplo, soa como um gesto simbólico isolado frente ao que parecem ser inconsistências de direção.
Exemplo melhor disso é a invasão da casa da protagonista por alguém ou por “alguéns” cuja identidade nunca se esclarece. Essa ausência de definição poderia, em tese, abrir espaço para múltiplas leituras e sublinhar as certezas da narrativa. No entanto, dentro do filme, essa proposta não se concretiza plenamente: em vez de se sustentar como escolha estética, a cena acaba se diluindo em uma ambiguidade pouco trabalhada, transmitindo a sensação de uma metáfora mal resolvida.
Assim, apesar da beleza fotográfica e da qualidade técnica dos enquadramentos, o curta não sustenta plenamente seus próprios intentos. O resultado é uma obra visualmente atraente, mas que permanece na superfície, com uma idealização de profundidade que se esvazia junto às propostas de lapsos narrativos e às ausências de contextualizações.



