por Ana Clara Grama
No curta-metragem documental “Quadrados”, o diretor João Pedro Costa revela maturidade estética e sensibilidade política ao filmar a ocupação Icauã Rodrigues, localizada no bairro da Várzea, em Recife. Mais do que o registro documental de um espaço marcado pela vulnerabilidade social, o filme se compromete a olhar para as pessoas que ali vivem de forma sensível, recusando o caminho fácil da exploração da miséria.
Ao invés de reduzir os moradores a símbolos de carência ou estatísticas sociais, o curta, que foi um dos três premiados pelo júri oficial da 8ª edição do Metrô – Festival do Cinema Universitário Brasileiro, se abre às subjetividades, às histórias e às personalidades singulares das carismáticas personagens. Elas são aproximadas da câmera de forma a respeitar que conduzam a narrativa a partir de suas próprias perspectivas e vozes.
Há também um refinado cuidado na maneira como a direção apresenta e organiza o espaço. A ocupação é apresentada como um conjunto de blocos e quadrados, um mosaico construído pelos próprios moradores, que se encaixam uns nos outros formando uma comunidade. Essa configuração reflete a interdependência e os vínculos entre os habitantes. A forma como a câmera na mão explora o espaço – há closes e movimentos circulares – reforça essa ideia, permitindo ao espectador perceber a ocupação como um organismo vivo.
Uma geometria orgânica que atravessa tanto a arquitetura precária das construções, quanto os sensos comuns e os preconceitos de nossa sociedade, que enquadra e delimita a vida de sujeitos materialmente pobres. Um jogo visual e simbólico que não se sobrepõe às histórias, mas sim atua como um comentário sutil sobre como essas pessoas são encaixadas em limites, tanto físicos quanto sociais.
Costa consegue unir cuidado ético no trato com os moradores enquanto indivíduos e responsabilidade política em sua direção, criando uma obra que se destaca não apenas pelo olhar sensível, mas também pela capacidade de propor um diálogo profundo entre espaço, forma e subjetividade. É cinema que acolhe e que escuta.



